MELINDRE

 

Melindres

Muitos problemas seriam evitados se as pessoas se dessem ao trabalho de cogitar dos objetivos da existência.

Não somos fruto do acaso, a partir do encontro de um óvulo com espermatozoide vencedor.

Vivíamos antes do berço.

Viveremos após o túmulo.

Transitamos pela Terra pilotando o corpo, máquina frágil que precisa ser alimentada e cuidada.

A todo o momento apresenta desajustes e dores que exigem cuidados e, não raro, nos oprimem.

E convivemos com pessoas que guardam limitações semelhantes, sob a regência do egoísmo, esse vilão das almas, a sustentar as dores e confusões do Mundo.

Estimaríamos, no relacionamento humano, banhar-nos em rosas, guardando inefável tranquilidade e inalterável bem-estar.

Ocorre que isso nunca acontece em plenitude, porquanto há sempre espinhos que nos ferem a sensibilidade, impostos pela convivência com desafetos da Terra e do Além.

O problema, amigo leitor, não está na contundência dos espinhos, mas, como afirma Chico, em nossa suscetibilidade, que se exprime na facilidade em nos melindrarmos.

É como uma alergia.

Há pessoas que podem comer quilos de queijo, sem problema algum. Outras ficam com o rosto deformado pelo inchaço, ingerindo mínima porção.

O melindre é a alergia da alma.

Um mínimo de contrariedade e eis o estrago feito, promovendo transtornos em nosso ânimo.

Para vencer a alergia física há uma terapia de dessensibilização, com o suporte medicamentoso a ser aplicado com critério e perseverança.

Para vencer a alergia espiritual, que tanto nos perturba e aborrece, é preciso arejar a alma, com o exercício perseverante da humildade.

Alguém alegará:

– Como pode ser a humildade o remédio para o melindre se é justamente por sermos humilhados que nos sentimos melindrados?

Quem assim questiona está confundindo humildade com humilhação.

A humilhação é a sensação de rebaixamento, de discriminação. Julgamos que alguém nos boicotou, diminuiu ou menosprezou…

A humildade é a consciência de nossas próprias limitações, que nos induz a não nos julgarmos melhor do que ninguém.

É simples entender.

Se sou humilde, nunca me sentirei  humilhado.

Se me sinto humilhado, humilde não sou.

Richard Simonetti

Muitos de nós, eventualmente, nos melindramos (isso é fato), mas nem todos admitimos  que somos  facilmente melindráveis. Como saber se somos assim? Quando esperamos que amigo seja aquele que só diz o que queremos ouvir; quando achamos que apoio é somente concordância com aquilo que pensamos; quando imaginamos que qualquer controvérsia é ofensiva; quando qualquer coisa que se diga como pensamento pessoal soa como um dedo apontado em nossa direção, estamos sofrendo de “melindre”.

É bastante óbvio que o melindre é uma das facetas do orgulho, e como podemos dizer sem medo de exagerar que a maioria de nós ainda é orgulhosa, não é difícil que nos envolvamos nas teias do melindre também.

Quando esperamos demais do próximo, o qual nem sempre tem o que nos dar e verdadeiramente não é obrigado a pensar diferente porque discordamos dele, nos tornamos suscetíveis de nos magoarmos desnecessariamente.

Não nos melindremos tanto… o próximo tem direito de ser o que é sem que isso seja necessariamente uma ofensa dirigida a nós.

Vania Mugnato de Vasconcelos

 

 

 

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