Abençoadas mãos
as que se estendem, se oferecem, se doam ao trabalho de
mitigar a fome daqueles que; sem teto, pela via pública
se alastram, como as ressequidas plantinhas que teimam em
sobreviver por entre as fendas das calçadas de cimento.
Assim como as temerárias plantinhas, os deserdados
do mundo se derramam pelos calçamentos da cidade,
lutando pelo direito à existência, apesar de
lhes serem todas as conjunturas adversas.
Como companheira mais fiel, conta eles com a fome, pois
esta se faz eterna sócia dos corpos que a penúria
adotou.
No afã de minimizar tanta agrura, tanto sofrimento,embora
sabendo quão insuficiente é o esforço
que empreendem,surgem os obreiros da caridade terrena distribuindo
as "quentinhas" que matarão a fome de alguns
e, junto com elas, deixam aos desditosos irmãos um
pouco de esperança na observação de
que, afinal, alguém se importa alguém lhes
nota a penúria e se apieda.
Iluminadas são as mãos que providenciam o
alimento à indigência: mãos que o preparam,
mãos que o acondicionam nas benditas "quentinhas",
mãos que cuidam da higiene dos utensílios
a serem usados no seu preparo e todas as mãos que
neste mister se envolvem!
Juntamente com o alimento para o corpo físico, algo
mais é colocado. Objetivando doar um pouco de si
mesmos, muitos dos obreiros amorosos das "quentinhas",
em todos os estágios do processo, desde a compra
dos mantimentos até a entrega, irradiam amor, rogando
aos Planos Superiores que sejam elas acrescidas dos remédios
necessários para o refazimento do corpo e da alma
dos que irão recebê-las, visto tão combalido
estarem pela miséria.
Este é um trabalho humilde e quase anônimo,
de cozinheiras e entregadores, lavadoras de panelas e limpadoras
de chão, porém cada fome aplacada, cada alma
reconfortada, onde o germe da gratidão é semeado,
confere a estes trabalhadores um ponto de luz nas cruzes
que os seus carmas lhes impõe.
Talvez seja este um trabalho pouco notado na Terra.
No entanto, por ele muito há de ser anotado no céu,
na ficha de cada obreiro, visto também serem intermediários
do Cristo na Terra, pois que por ele foram incumbidos de
mitigar a mais primária de todas as necessidades:
a FOME.
Alguns haverão de receber o alimento com indiferença,
da qual nem sempre serão culpados, pois que a necessidade
constante, o constante sofrimento têm poder para tornar
a alma apática, indiferente, o que poderá
parecer ingratidão.
Mas, em muitos olhares cansados, o entregador de "quentinhas"
há de perceber um brilho rápido ou uma lágrima
mal dissimulada. Certo esteja o obreiro que, neste momento,
o espírito do indigente, reconhecido, lhe confere
aquilo que de mais precioso poderia receber: o tesouro da
gratidão.
Do espaço infinito, neste momento, os amigos espirituais
dos trabalhadores das "quentinhas", que os acompanham
sempre na santificada tarefa, hão de sorrir jubilosos
entoando hosanas ao Pai que permite aos filhos pecadores
tão bela oportunidade de redimir erros do passado,
iluminando as estradas do futuro.